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Minerais estratégicos podem abrir nova rota tecnológica para o PIM

Mineração realizada no Amazonas Divulgação O Amazonas está diante de uma oportunidade que começa debaixo da terra, mas não deveria terminar na exportaçÃ...

Minerais estratégicos podem abrir nova rota tecnológica para o PIM
Minerais estratégicos podem abrir nova rota tecnológica para o PIM (Foto: Reprodução)

Mineração realizada no Amazonas Divulgação O Amazonas está diante de uma oportunidade que começa debaixo da terra, mas não deveria terminar na exportação de minério. A corrida mundial pelas terras raras encontra no estado duas condições que, até agora, caminharam quase separadas: ocorrências minerais no interior e uma base industrial instalada em Manaus. A pergunta é direta: seria possível aproximar o potencial mineral do Amazonas das cadeias produtivas do Polo Industrial de Manaus (PIM)? A resposta não cabe em um simples “sim”. Há conhecimento geológico, interesse internacional e novos instrumentos de financiamento. Mas ainda faltam estudos mais aprofundados, projetos economicamente viáveis, tecnologia de processamento, infraestrutura e segurança ambiental e regulatória. Terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos utilizados em ímãs de alto desempenho, motores elétricos, celulares, computadores, equipamentos médicos, turbinas eólicas e tecnologias de defesa. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na natureza. A dificuldade está no fato de geralmente aparecerem misturados a outros minerais e, muitas vezes, em concentrações que tornam complexas as etapas de separação, purificação e aproveitamento industrial. Brasil tem a segunda maior reserva Segundo o Ministério de Minas e Energia, o país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em 21 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 23% do total global. O dado coincide com o Mineral Commodity Summaries 2026, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, que coloca o país atrás apenas da China. A dimensão geológica, porém, contrasta com a participação ainda pequena do país na produção e, principalmente, nas etapas mais sofisticadas da cadeia. Possuir o recurso no subsolo não significa dominar a tecnologia necessária para transformá-lo em óxidos, ligas, ímãs, componentes e produtos industriais. É nessa distância entre a mina e a fábrica que se encontram a principal oportunidade e o maior desafio para o Amazonas. Financiamento muda o cenário, mas não garante recursos ao estado O quinto leilão do Eco Invest Brasil prevê até R$ 2,5 bilhões em recursos do Tesouro Nacional para instrumentos voltados a seis cadeias de inovação. Entre elas estão o beneficiamento de minerais críticos, os sistemas de baterias e armazenamento de energia e a circularidade de resíduos minerais e industriais. A rodada prevê fundos de inovação, uma linha de crédito corporativo e recursos não reembolsáveis para pesquisa aplicada e empreendedorismo de base tecnológica. O modelo busca atrair capital privado e apoiar projetos em diferentes estágios, desde a pesquisa até iniciativas de maior maturidade comercial. Isso não significa que exista uma parcela reservada ao Amazonas. Os recursos deverão chegar a projetos selecionados por instituições financeiras e fundos, conforme critérios técnicos, econômicos e socioambientais. Também foi sancionada, em setembro, a Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca ampliar a agregação de valor no país, estimulando pesquisa mineral, lavra, beneficiamento, transformação, industrialização e mineração urbana. A lei permite que empresas convertam em crédito fiscal até 20% dos gastos com beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana. O programa terá limite de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034, e os projetos precisarão de aprovação prévia. A legislação também autoriza a União a participar com até R$ 2 bilhões do Fundo Garantidor da Atividade Mineral. A aplicação desse valor dependerá de atos posteriores e de disponibilidade orçamentária e financeira. São instrumentos diferentes do Eco Invest Brasil e, por isso, os valores não devem ser simplesmente somados. Em conjunto, entretanto, indicam uma mudança de direção: a política mineral começa a olhar não apenas para a extração, mas também para pesquisa, processamento, inovação e produção industrial. Ainda em setembro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 77,5 milhões para a Viridis Mineração implantar um centro de pesquisa e processamento de terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais. O projeto prevê uma planta-piloto para a produção de carbonato misto e o desenvolvimento de técnicas de processamento. O exemplo mineiro oferece uma lição ao Amazonas. O financiamento tende a seguir projetos que apresentem pesquisa estruturada, empresa responsável, tecnologia, planejamento e perspectiva de viabilidade. Apenas indicar que existem minerais no subsolo não será suficiente para atrair recursos. Potencial não é reserva pronta O Amazonas possui ocorrências relevantes de minerais críticos e terras raras. Não há, contudo, um levantamento oficial comparável que permita classificá-lo com segurança como primeiro ou segundo estado do país nesse potencial. A informação precisa ser tratada com cautela porque ocorrência, recurso e reserva não são sinônimos. Uma ocorrência indica a presença de determinado mineral. O recurso resulta de estudos que permitem estimar sua quantidade e suas características. Para ser classificado como reserva, é necessário demonstrar também que o aproveitamento pode ser técnica e economicamente viável, consideradas as condições ambientais e legais. Essa diferença impede que toda estimativa geológica seja automaticamente convertida em riqueza disponível. Entre as áreas mais conhecidas do estado está Pitinga, em Presidente Figueiredo. O complexo mineral está associado principalmente à produção de estanho a partir da cassiterita e também possui mineralização relacionada a nióbio, tântalo e elementos de terras raras. A cassiterita, o estanho, o nióbio e o tântalo não são terras raras. Eles integram, entretanto, a discussão mais ampla sobre minerais críticos e estratégicos por suas aplicações em cadeias industriais e tecnológicas. O ítrio, identificado em estudos sobre a região, faz parte do grupo dos 17 elementos classificados como terras raras. A relação com Pitinga é importante porque demonstra que o debate no Amazonas não começa do zero. A área possui uma operação mineral consolidada e conhecimento geológico acumulado. Estudos técnicos identificam, além da cassiterita, minerais associados a nióbio, tântalo e elementos de terras raras. O possível aproveitamento desses materiais, porém, dependeria de novas pesquisas, testes tecnológicos e comprovação de viabilidade econômica e ambiental. Outro ponto de relevância geológica é o Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, estudado pelo Serviço Geológico do Brasil por suas concentrações de nióbio e elementos de terras raras. Seis Lagos, contudo, não deve ser tratado como uma jazida prontamente disponível para exploração. A formação está inserida em áreas protegidas, entre elas a Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos, o Parque Nacional do Pico da Neblina e a Terra Indígena Balaio. As restrições ambientais e territoriais tornam inadequado transformar seu potencial geológico em promessa imediata de mineração. Esse cuidado é necessário porque a valorização internacional dos minerais críticos pode criar a impressão de que o Amazonas possui uma fortuna pronta para ser retirada. O estado reúne ocorrências relevantes e conhecimento geológico acumulado, mas a transformação desse potencial dependeria de novos estudos, viabilidade econômica, licenciamento e respeito às populações e aos territórios afetados. O valor está depois da mina A China concentra grande parte da capacidade mundial de separar e processar terras raras e de transformá-las em materiais utilizados pela indústria. É nessa etapa que o valor se multiplica. Entre o minério retirado da terra e um motor elétrico existe uma cadeia que passa pela separação dos elementos, purificação, produção de óxidos, fabricação de ligas, ímãs permanentes e componentes industriais. O Brasil ainda precisa desenvolver e ampliar essas etapas. Em relação ao Amazonas, essa constatação muda o foco da análise. O objetivo não deveria ser apenas discutir a abertura de novas minas, mas identificar quais partes dessa cadeia poderiam ser desenvolvidas no estado com viabilidade econômica, domínio tecnológico e segurança ambiental. Esse processo todo exige tempo. Projetos minerais e unidades de processamento podem demandar anos de pesquisa, licenciamento, testes tecnológicos, implantação e formação de fornecedores antes de alcançar escala comercial. A possível conexão com o PIM O diferencial do Amazonas pode estar justamente fora da área de extração. O PIM reúne fabricantes de motocicletas, televisores, aparelhos de ar-condicionado, computadores, componentes eletroeletrônicos e outros produtos integrados a cadeias globais. Diferentes componentes utilizados por essas indústrias podem conter terras raras, especialmente ímãs permanentes presentes em motores, alto-falantes, sensores e outros dispositivos eletrônicos. Essa conexão não se limita às terras raras. O estanho obtido da cassiterita é amplamente utilizado em soldas da indústria eletroeletrônica. O tântalo tem aplicação em capacitores presentes em equipamentos eletrônicos, enquanto o nióbio é empregado principalmente em aços especiais e ligas de alta resistência. Isso aproxima, do ponto de vista tecnológico, alguns recursos minerais encontrados no Amazonas dos setores instalados no PIM. Entretanto, esses minerais não poderiam seguir diretamente da área de extração para as linhas de produção. Entre a ocorrência geológica e a fabricação do produto final existe uma cadeia longa e complexa, que pode envolver beneficiamento, separação, refino, fabricação de ligas e produção de componentes. Antes de propor qualquer integração, seria necessário mapear quais indústrias do PIM utilizam componentes com terras raras e outros minerais estratégicos, em quais produtos, em que volume, de quais fornecedores e com quais especificações técnicas. Esse diagnóstico permitiria saber se existe escala para atrair unidades de processamento ou fabricantes de ligas, ímãs e componentes. Também ajudaria a avaliar se as regras da Zona Franca de Manaus (ZFM) e os Processos Produtivos Básicos (PPBs) poderiam apoiar novas etapas industriais ligadas a esses materiais. Sem esse levantamento, a conexão entre os recursos minerais do Amazonas e o PIM continuará sendo uma possibilidade estratégica de longo prazo, e não uma cadeia produtiva já estruturada. A segunda rota: mineração urbana Há uma alternativa menos evidente para aproximar as terras raras do PIM: a mineração urbana. Equipamentos eletrônicos, motores, discos rígidos, alto-falantes e outros componentes descartados podem conter materiais reaproveitáveis. A recuperação é tecnicamente desafiadora e depende de escala, rastreabilidade e tecnologia, mas passou a integrar expressamente a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Em um polo que fabrica e movimenta grande quantidade de produtos eletroeletrônicos, o Amazonas poderia pesquisar tecnologias de desmontagem, separação e recuperação de materiais estratégicos presentes em resíduos industriais e equipamentos descartados. Essa frente não substituiria a mineração convencional, mas poderia criar uma cadeia complementar de economia circular. Também aproximaria empresas do PIM, universidades, startups e institutos de pesquisa de um dos maiores desafios da transição tecnológica: recuperar materiais valiosos sem depender exclusivamente da abertura de novas minas. Quanto da riqueza permanecerá no Amazonas? Mesmo que esses novos projetos avancem, é preciso considerar quanto do valor gerado permanecerá no estado. Uma operação mineral pode elevar a produção e as exportações sem criar uma cadeia local relevante. Para produzir desenvolvimento, precisaria gerar empregos qualificados, contratar fornecedores regionais, financiar pesquisa, formar profissionais e criar alguma capacidade de processamento ou transformação no estado. Também seria necessário assegurar benefícios concretos aos municípios e às comunidades afetadas, além de transparência na arrecadação e na aplicação das receitas associadas à atividade mineral. Sem essa conexão, o Amazonas poderá abrigar a riqueza mineral e continuar distante das etapas mais rentáveis e tecnológicas da cadeia. Uma oportunidade condicionada à responsabilidade As terras raras são estratégicas para tecnologias de baixo carbono, mas sua extração e seu processamento não são automaticamente sustentáveis. Dependendo das características do depósito e da rota tecnológica empregada, a atividade pode envolver reagentes químicos, consumo de água, geração de resíduos e riscos de contaminação. Na Amazônia, onde rios, florestas e comunidades formam sistemas inseparáveis, o padrão ambiental não pode ser tratado como exigência secundária. Ele precisa fazer parte da própria avaliação de viabilidade. A questão central é como o Amazonas pretende participar. Se ficar apenas na extração, o estado poderá repetir um modelo conhecido: exportar matéria-prima e importar produtos de alto valor. Se conseguir articular conhecimento geológico, pesquisa, processamento, mineração urbana e demanda industrial, poderá abrir, no longo prazo, uma frente de diversificação econômica e tecnológica. Os novos instrumentos de financiamento podem ajudar a reduzir a distância entre a mina e a indústria, mas não eliminam os anos necessários para pesquisar, licenciar, testar e implantar projetos. Será a capacidade de planejar, produzir conhecimento e transformar recursos naturais em valor local que determinará se o Amazonas ocupará um lugar estratégico nessa cadeia ou continuará apenas observando a riqueza passar. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.